Tradições de Alguns Dias do Ano (parte I)

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Mensagem  Miguel Pereira em Qui Abr 08, 2010 12:45 pm

-No dia de Ano Novo (ou de Ano Bom), procura o povo evitar que alguma coisa corra mal, se efectue despesa inútil ou se pague qualquer dívida, pois receia que fazê-lo possa provocar a repetição desse acto ao longo do ano: "Ficaria todo o ano a correr mal".
-Nos primeiros dias de Janeiro, sobretudo de 1 a 6 (antigo dia de Reis), cantam-se as Janeiras. Um ou mais grupos vão ás casas dos lavradores e entoam versos alusivos aos Reis Magos e de saudação a cada um dos membros da família, como estes, por exemplo:

"Os três Reis do Oriente,
entre montes e valados,
a Belém vieram ter
por uma estrela guiados.

As Janeiras não se cantam
só por vinho ou por dinheiro.
Dêem-nos presunto e queijo,
ou chouriças do fumeiro.

Quem diremos nós que viva
Entre os homens mais honrados?
Viva lá, senhor Fulano,
que é modelo de casados.

Viva também sua esposa
por cem anos e um dia,
que não há melhor pessoa
cá na nossa freguesia.

Vivam todos os seus filhos,
raminhos de bem querer,
pois são todos gente boa
e melhor não pode haver!"

Quase todos dão alguma coisa, até para fugirem ao remoque, caso isso não suceda:

"Esta casa cheira a unto,
aqui mora algum defunto!"

-Pelo Carnaval, é vulgar ver a gente nova mascarar-se e correr os sítios mais frequentados da freguesia, dizendo piadas (algumas bem pesadas) e não raro escarnecendo de um ou outro, pelos seus vícios, defeitos ou fraca maneira de proceder.
-Toda a gente da aldeia sabe que o primeiro de Abril é o dia das petas.
Pois não é raro ver-se alguém a cair na esparrela.
Em certos casos, é o lavrador que ao subir, depois de acomerar o gado, espalha a notícia:
"-Olhai que a vaca turina já lá tem um bezerrinho agarrado aos tetos!"
Todos descem, cheios de curiosidade, e só dão pelo logro quando, procurando por todos os laos, o não encontram.
Outras vezes, é a mãe que anuncia:
"-Então, todos a dormir a sono solto e não me ouvem a chamar para ajudarem a apanhar uma raposa que se consolava a dar-nos cabo das galinhas? Vá lá que não foi preciso! Liquidei-a eu á sacholada! Hão-de ver que linda ela é!"
Descem, ali a pouco, enquanto, do pátio, ela os observa na busca e escarnece, quando os vê dispostos a perguntar onde a colocou:
"-Ó meus burros! Vós não sabeis que dia é hoje?"
Em casa ou na escola, os rapazes também não cessam de inventar motivos para ludibriar os outros e até os velhos se entretêm a entusiasmar os adolescentes a segurar nos sacos, para a caça aos gambozinos. Em lugares esconsos os deixam, de olho alerta, esperando-os, até que a noite os obriga a interromperem o trabalho.
-Por alturas da Primavera, com os campos matizados de flores e verdura, vem a Páscoa. O Sábado de Aleluia dava o alerta: com os sinos a bamboar festivamente, foguetório a estrondear e um ou outro Judas estapafúrdio a vomitar lume por todos os poros, até se desfazer de todo.
Casas bem lavadinhas e limpas de teias de aranha esperavam, no Domingode Páscoa, a vinda do Compasso. O senhor Abade (ou Prior, ou Reitor) chegava com o seu séquito: o juiz da Cruz, mordomos da cesta, para a recolha do folar, o rapaz da caldeira e o da campainha, mais quem se dispunha a acompanhar.
"-Aleluia! Aleluia! Aqui entra a 'bandeira' de Jesus Cristo Ressuscitado, aleluia!" e a água benta salpicava o rosto dos presentes e os doces que sobre a mesa esperavam a tomada de quem não os enjeitava.
Era dada a cruz (enfeitada com flores) a beijar e vinha a saudação:
"-Ora, seja então por muitos e bons anos que voltemos aqui a juntar-nos!"
"-Obrigado, senhor Abade e o senhor que os conte! Faz favor de se servir de uns docinhos e dum cálice de Porto!"

Raramente aceitava e até o pessoal do séquito tinha de sorver á pressa o que havia encetado, para não ficar para trás.
Flores esmagadas e a erva doce que pisavam exalavam um doce olor, uma ou outra largada de foguetes ressoava e nalgumas freguesias sons estridentes de bombos ou de gaitas ou as notas sonoras de bandas espalhavam-se pelos ares
Até parece que o sol sorria também lá no alto e a natureza se alegrava, á medida que deambulavam pelos caminhos onde, por cima dos muros, espreitavam rosas e muitas outras flores.
"-Aleluia! Aleluia!", respondiam em coro os que haviam acorrido a beijar a cruz em cada casa.
E á noite, por entre cânticos, repicar de sinos e girândolas festivas, a Cruz recolhia á Igreja, o senhor Abade dava a benção, agradecia a presença do povo e, com a alma em festa, cada um recolhia a casa a lamentar ver terminado aquele dia.

(continua)

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Mensagem  André Filipe em Sex Abr 09, 2010 8:33 am

Devo só avisar que a respeito do dia 1 de Abril, o Miguel tem o hábito de pregar mentiras bastante pesadas, daí quase toda a gente cair nelas. Por isso ponham-se a pau com ele nesse dia. Laughing
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